Panfleto ruim pola casa da Piolha

Foi daquela, jaquando. Aos da Piolha, que eram umha moreia deles, os velhos, os pais e um paxe de filhos, entraram-lhes na casa. Nesse tempo nom havia lei nem nada e passavam essas cousas ainda mais que agora. Conta-se ainda hoje porque foi mui soado. Os criminais nom fórom só roubar, gostárom do lugar e estabelecérom-se ali à conta dos da Piolha. Eram umha quadrilha de fora, das Castelas ou por alá. Em primeiro figérom da pobre família um pandeiro, fechárom-nos, malhárom neles e até mesmo matárom a paus o filho mais velho na cuneta de diante do portal por se lhes repor. Esses dias seica foram terríveis, nom havia onde encontrar acougo e o pânico enchia cada estância da casa. Os da piolha, mui dados à festa mália as carestias que passaram, disque cantavam muito bem. Nem um chio se voltou escuitar na casona de pedra. Aprendérom a calar, a baixar a vista e a assentir dando à cabeça. Aprendérom a rosmar nos currunchos e a enviar as queixas para a gaveta do peito. O tempo foi passando e aquela gente de fora nom se dava ido. E como se iam ir? As terras dos da Piolha eram das melhores da contorna e tinham a família inteira a trabalhar para eles. Era umha vida regalada para qualquer criminoso. O pai e mais a nai de família aguardavam que os vizinhos os acudissem assim que soubessem do conto e com essa esperança resistiam os dias. Mas os meses fórom caindo e aginha os anos sem que resposta nengumha chegasse das outras casas. Um dia, os dous vírom como um dos usurpadores falava amigavelmente com o dono das terras lindeiras e nunca voltárom cruzar olhadas cúmplices entre si. É difícil imaginar o que tal passou aquela gentinha sequestrada na sua própria morada.

 

Ao morrerem os avôs, os únicos que podiam falar o idioma da casa sem receber umha lavaçada, a língua de sempre ficou reduzida às confidências e aos afagos de compaixom após as tundas. Nom lhes prestava a aqueles bandoleiros escuitar palavras diferentes das suas, alporizava-os a rebeliom das sílabas próprias, dos sons nativos. Eram como um questionamento inconsciente da sua autoridade, como umha prova da ilegitimidade do seu poder sobre aquelas paredes que lhes rabunhava a alma sem que soubessem explicar bem o porquê. Mas é lei de vida que o tempo amoleça até o ferro mais duro. Vinhérom anos de boas colheitas e isso suavizou o ânimo violento dos novos senhores da casa da Piolha. Aliás, o crego interessava-se pola saúde dos pícaros mais pequechos e a filha do meio conquistara o favor dum dos captores desde as sabas do seu leito. Já se lhes permitia sair para ir à misa e à catequese ou brincar na eira da casa sob a olhada vigiante duns sequestradores já maduros. O chefe da gavilha convidava ao seu próprio vinho ao pai da família e reflexionava em voz alta sobre o bem que iam as cousas. Nada predizia o que ia acontecer a seguir. Com a peste da pataca a necessidade apertou sem piedade. É bem sabido que quando isso passa é quando fica mais claro quem tem as chaves da porta no peto. Foi entom quando aquilo. Ainda é hoje o dia que custa esclarecer o que é verdade e o que é lenda. Nom se sabe como, pequenas desgraças sucedérom-se numha cadeia inverosímil que sempre tinha os ocupantes como vítimas. Um dia acedava-se-lhes o caldo e ficavam sem jantar, outro caiam polas escaleiras porque cedia um chanço ou escorregavam no curral e escordavam umha perna, um outro o ar batia umha porta e entalava-lhes de força a mao da pistola e assim seguido. Até chegou a esboroar-se o teito do faiado em riba do chefe quando dormia. Era como se a própria casa refugasse os estranhos, como um corpo vivo a defender-se dumha invasom vírica. Ou se quadra era cousa de trasnos ou que os vira umha meiga. Meiga, sim, palavra que aprendérom a temer os estrangeiros e que por vezes se lhes escrevia nas olhadas da nai de família, sempre calada e altiva na mansedume. Aquela sua devoçom polos meninhos mais novos, polos que nasceram já com a casa tomada, era motivo de preocupaçom para os bandidos e de verdadeiro temor para a filha do meio que a avichava nas esquinas. Os pequenos nom ganharam o medo que produz o assassinato do irmao na própria porta e nada deviam saber do acontecido pola proibiçom expressa de falar do caso. É em situaçons como essas em que as palavras, os simples nomes, adoptam poderes taumatúrgicos capazes de produzir trevons na quotidianidade abafante ou de criarem mundos de repouso entre as agulhas opressivas do controlo. Assim, como um bálsamo incendiário é como a nai deitava aos borborinhos o nome do filho morto nos ouvidos dos mais novos. No entanto, a resistência da casa continuava . A força de asejar, a filha do meio deu escuitado a palavra clandestina com um arrepio a acender-lhe o espinhaço. Correu, correu onda o amante maltratador com a denúncia que lhe rebordava os beiços. Ao domingo seguinte o sermom do crego justificou o encerramento dos rapazes nos aljubes da casa reitoral e tamém cada dente roto, cada maçadura e cada insulto aos corpos ingeis dos filhos mais novos. Disque eram culpáveis de todas as intoleráveis e violentas mostras do rechaço da velha moradia. Disque, sim, mas sobre tudo eram culpáveis de nom ter medo.

 

Seguem ali, afastados, fechados como animais despidos ante a única olhada dos seus sequestradores armados, sem lei nem defesa que os proteja. Por isso cumpre pronunciarmos os seus nomes tamém sem medo: Maria, Antom, Édu, Jéssi, Teto, Catalina e ainda Sánti, Telmo, Xosé, Miguel... para que a casa resista, vença e eles sejam resgatados.