O silêncio informativo sobre os 400.000 voluntários conduzidos à morte

Este fim de semana vi tumbado numa cama de hospital a um daqueles primeiros voluntários galegos que foram a limpar o petróleo do Prestige. Pediu-me que escreva algo sobre o que lhe está a passar, porque se morre lentamente. Assim que humildemente me disponho ao explicar, pois não sou experiente no assunto. Não obstante, estou seguro que vocês saberão sacar as pertinentes conclusões.

Os bencenos e seus derivados estavam no chapapote da costa galega e também aparecem agora no actual desastre do vertido de BP no Golfo de México. Enquanto em EEUU começa a aparecer certo debate sobre o que esse verquido vai supor para a saúde da população e quem vai sumir os custos, em Espanha o assunto foi omitido pelo partido do governo e pelo da oposição. O primeiro para ocultar seu desastrosa inoperancia e o segundo para usar a catástrofe só como arma política arroujadiça.

Trabalhando primeiro o tradicional sentido solidario da população, uns e outros fizeram publicidade para deslocar a cerca de 400.000 voluntários com o objectivo de abaratar a limpeza da costa afectada, enquanto poucos dias dantes os principais responsáveis de ter evitado o desastre andavam de caçada com o senhor Areces. Que pouco mudou a secular Espanha do cortijo!

Para tampar as misérias dos lerdos que costumam governar Espanha por tempos, se alabou com som de trombeta a boa disposição dos espanhóis em frente às dificuldades alheias, ao mesmo tempo que se omitian a propósito os elevados riscos tóxicos aos que os voluntários se iam enfrentar. Conduzindo assim nossa querida elite política a muitos desses sacrificados voluntários para uma morte lenta, mas segura.

Mas a verdade não demorará em sair à luz. Porque quando os inumeráveis afectados pelo silêncio sobre os riscos apresentem as correspondentes reclamações ao Governo de Espanha, o assunto do azeite de colza adulterado será uma minucia. Agora que tanto dinheiro se vai destinar para o resgate e bem-estar da banca, seria bom que se provisionaran muitos milhões de euros, não fossem terminar de avariar as arcas do estado e a previdência pública pelas inúmeras denúncias que estão por vir se dantes não falecem os afectados e seus familiares.

O benceno é um composto com nível cancerígeno 1, potente disruptor endocrino e neurotóxico causante de alterações morfológicas nas células do sistema nervoso. Afecta aos seguintes sistemas: cardiocirculatorio, respiratório, reproductivo, inmunitario, gastrointestinal (hígado) e endocrino. Também provoca danos no embrião, cancro em múltiplos órgãos e é um potente neurotóxico degenerativo.

A partir de aqui cito um artigo da revista Interviu, aparecido o 12/11/2007: Doentes de chapapote.

Em resposta a uma pergunta do senador do BNG Francisco Xesús Jorquera, o executivo fala de "um incremento de risco de sintomas respiratórios, hiperreactividade bronquial, estrés oxidativo, inflamação pulmonar, remodelado bronquial e vascular e dano cromosómico sócio à participação na limpeza do fuel um a dois anos após a mesma", baseando-se nos dados de estudos epidemiológicos de 810 marinheiros de diversas confrarias galegas apresentados pelo Instituto Carlos III e realizado por universidades da Coruña, Madri e Barcelona. Na mesma resposta inclusive recomenda "realizar um seguimiento da saúde da população analisada". O senador do BNG pergunta-se se não seria pertinente ampliar o controle ao resto dos quase 400.000 voluntários.

"Quem mais risco podem correr são os militares, o pessoal de Tragsa, os vizinhos que estiveram em contacto directo durante seis meses e os que inhalaron os gases dos primeiros dias. Ainda que os voluntários de fim de semana seguramente tenham mais problemas por sofrer o tráfico de Madri toda a vida que por um fim de semana expostos ao chapapote", assegura o médico toxicólogo Luis Díaz Cabanela, vogal de ADEGA (Associação de Defesa Ecolóxica de Galiza), que compareceu com um relatório na Subcomissão de Investigação sobre o Prestige no Congresso dos Deputados.

Díaz Cabanela assegura que os 1.462 casos que o Sergas (Serviço de Saúde galego) reconhece ter atendido entre novembro de 2002 e julho de 2003 "foram a ponta do iceberg, já que muitas das pessoas que apresentaram sintomas leves não demandaron atenção médica". O experiente assegura que "mais da metade podiam-se ter prevenido utilizando as mascarillas adequadas: com filtro em vez das de papel, como recomendávamos nós e o Instituto Nacional de Toxicologia", para não inhalar os tóxicos compostos orgânicos volátiles, como o benzeno, presente ao fuel fresco. "Desde o primeiro momento teve alarme para a saúde porque sabe-se que o benzeno é cancerígeno e pode induzir a uma leucemia com níveis de exposição muito baixos. E a mascarilha de papel está muito bem para fazer bricolage em casa mas não para estar exposto a substâncias tóxicas e cancerígenas". Desta forma, Díaz Cabanela adverte: "Terá que esperar 15 anos para ver se aparecem casos de leucemia em militares, pessoal de Tragsa, vizinhos e quem estiveram em contacto directo e prolongado". Seus reproches apontam também a quem governavam quando ocorreu a catástrofe: "Tentaram minimizar a situação. Não nos escutaram e seguiram repartindo mascarillas de papel; não se podia falar de maré negra; disseram que não tinha benzopileno; inclusive Mariano Rajoy, então comisionado do Governo para o ?Prestige?, manifestou em roda de imprensa que as mascarillas com filtro não eram necessárias porque se trabalhava em zonas muito ventiladas".

Fonte: Qmuntyhttp://capitandelasardina.wordpress.com/