Crise grega e sua extensão a Europa «Chamamos a todos os trabalhadores a se alçar contra o poder capitalista»
A Frente de todos os Trabalhadores Militantes (PAME) está a encabeçar os protestos em Grécia. Sotiris Zarianopoulos passou por Euskal Herria convidado por LAB para explicar em primeira pessoa o que ocorre em Grécia. O que sucede ali se estende à União Européia porque é «uma estratégia desenhada pelos neoliberais». Lume a alçar-se e anuncia novas greves em Grécia.
Sotiris Zarianopoulos afirma que o PASOK grego está a actuar ao serviço do poder económico neoliberal e «o nível de agressão contra os trabalhadores é o mais alto após a Segunda Guerra Mundial». Escutar ao representante do Comité Executivo de PAME é acercar-se à realidade que se está a dar neste momento dentro do Estado espanhol.
Como está a situação económica em Grécia?
Desde que os social-democratas do PASOK chegaram ao poder incrementaram-se os ataques contra os trabalhadores em Grécia até um nível que não se tinha dado após a Segunda Guerra Mundial. Qualquer simples direito de qualquer trabalhador, tanto do sector público como do privado, está a ser abolido. Os salários estão a reduzir-se até um 50%, o mesmo que passa com as pensões no sector público e privado.
De quanto dinheiro falamos?
A média salarial era dantes de 740 euros, agora são 500 euros, especialmente nos novos trabalhadores, os mais jovens. A média das pensões estava em 660 euros, depois baixou a 360 euros. Com respeito à Segurança Social lembrou-se na semana passada uma nova reforma de pensões em Grécia com o visto bom da União Européia. Aprovar-se-á neste mês no Parlamento. Para aceder a uma pensão completa terá que cotar 40 anos e a vida trabalhista prolongar-se-á aos 70 anos. Muito poucos vão poder aceder a uma pensão. Instauraram o despedimento livre, para todos, qualquer empleador pode despedir aos trabalhadores com umas indemnizações que se reduziram num 50%. Generalizou-se o trabalho flexível e privatizaram-se a Educação e a Previdência. Aumentaram-nos os impostos aos trabalhadores com o IVA de 19% ao 23% e aos empresários reduziram-lhes de 45% ao 20%. Os benefícios empresariais cotam só ao 10% e os trabalhadores suportamos uma pressão fiscal de 35%.
Quem mais sofre é quem menos tem?
Está a ter um aumento de ajudas para as empresas e bancos, enquanto privatiza-se tudo. Grécia está em venda. Na semana passada [faz dez dias] assinaram-se ajudas do Governo grego e a UE que entregaram 380.000 milhões euros aos bancos. Saqueiam-nos nossos salários e eles obtêm financiamento sem problemas. Outro das mudanças supôs que tenha ajudas à contratación de novos trabalhadores, que podem chegar à totalidade do salário e as cotações sociais pagas pelo Estado; pode-lhes sair grátis. Os trabalhadores com mais antigüidade vão ser despedidos porque vão contratar com menos direitos trabalhistas a gente nova. Praticamente todo o salário vai ser pago pelo Estado grego de acordo com o novo modelo de contrataçâo.
Farão greve se aprova-se a reforma das pensões?
Calculo que em torno do 20 ou 21 de junho convocaremos uma greve de um ou dois dias. Ademais, PAME está a propor novas greves para o verão. Será a oitava ou nona greve geral desde dezembro.
Europa sempre tem presumido de modelo social, mas à primeira de mudança começa a descomponher-se; como se pode terminar com este sistema que fortalece ao neoliberalismo?
Estas medidas foram decididas faz já nuns anos. A crise é a oportunidade para implementá-las, mas não sua origem. Foram decididas com os tratados de Maastricht e de Lisboa, e foram apoiadas pelos conservadores, os social-democratas e os partidos políticos oportunistas. São medidas apoiadas no Parlamento grego pelos conservadores de Nova Democracia, os social-democratas do PASOK e a coalizão chamada de esquerdas, um conglomerado de reformistas e oportunistas, os que abraçaram o eurocomunismo. Estas medidas vão generalizar-se em toda Europa.
No Estado espanhol e em Portugal vão nessa direcção, recorte-los estendem-se a Alemanha, Grã-Bretanha, Estado francês...
Não vão ser só para paliar a crise e nesses países, senão que impor-se-ão em todos e para as gerações venideras. São estruturais, não caiba dúvida.
Como se podem frear?
Chamamos a todos os trabalhadores a se alçar, a se levantar, porque a situação será dramática nas próximas décadas. Nos próximos anos vão ser duros e vai ter muitos sacrifícios, mas em qualquer caso desde PAME pensamos que a luta supõe muitos sacrifícios. Por exemplo, por participar nas greves está a despedir-se a trabalhadores, mas são sacrifícios necessários porque com nossa força podemos mudar a situação. Não aceitamos que nos digam que nos sacrifiquemos pelo país na redução do déficit das políticas que praticaram os poderosos. Em qualquer caso, o sacrifício que supõe a luta sempre será melhor que o sometimiento que pretendem fazer com a classe trabalhadora.
Que é o que se deve fazer?
O mais importante para nós é mudar a forma de pensar dos trabalhadores, que superem o medo aos despedimentos. Devem ser conscientes de sua habilidade e capacidade de mudar as coisas, porque somos maioria na sociedade, produzimos todo e os capitalistas, nada. Queremos ter o direito de fazer-nos com o que produzimos. Pensamos que os sindicatos devem se dirigir aos trabalhadores e chamar para que não votem a estes partidos que apoiaram estas medidas regresivas para a classe trabalhadora. É necessário golpear a estas políticas e aos partidos políticos que as apoiam, ali onde se produzam, nas eleições gerais, as municipais e, especialmente, aos sindicatos que apoiam essas medidas.
Por que triunfou o PASOK nas últimas eleições?
O PASOK foi aprovado, deram-lhe o visto bom os capitalistas e os empresários porque sabia que controlava aos sindicatos, ao conglomerado que forma o GSE. A socialdemocracia é a que faz o trabalho sujo do poder económico. Em PAME estamos a impulsionar greves que sim estão a pôr nervosos ao poder. O que há que ter em conta é que o ataque é generalizado em toda Europa. O poder apoia-se no papel que jogam os sindicatos conciliadores, como a CES européia, para avançar na agressão contra os trabalhadores.«Devemos impulsionar um novo modelo de desenvolvimento social»Onde está a saída segundo o PAME?
Nosso objectivo é continuar nesta luta, sustentá-la no tempo. Os trabalhadores e os sindicatos devem decidir-se a lutar por um novo modelo de desenvolvimento social, de socialización das empresas estatais gregas e avançar a uma economia planificada e controlada pelos trabalhadores. Este momento de crise é uma oportunidade para o movimento de orientação de classe para conseguir esses lucros mais rápido.
Em vistas de que a crise grega se estende pela UE, os governos se renderam aos poderes económicos?
Os governos não fracassaram, senão que um de seus objectivos era implementar estas políticas para que a UE seja tão competitiva como Estados Unidos e China. É um velho problema que o capital europeu está obrigado ao resolver agora a costa dos trabalhadores. Em PAME temos claro que a crise não está costeada pelos capitalistas, senão pelos salários dos trabalhadores. O dinheiro público não vai aos salários nem à Segurança Social, senão que se destina neste momento às empresas. Desta maneira, as empresas obtêm benefícios e os trabalhadores se empobrecen. A classe trabalhadora será a grande vítima do capitalismo em todos os países se não é capaz de reagir ante estas agressões contínuas.
Os trabalhadores devem ser as vítimas?
Não. Nosso repto principal é mudar essa situação, porque se não será dramática para os trabalhadores. É o momento para radicalizar a luta, de que os trabalhadores e sindicatos discutam, debatam e decidam a favor de um novo modelo de desenvolvimento e outro poder político à frente dos estados.
PAME tem o apoio do Partido Comunista?
O KKE, partido comunista de Grécia, apoia a PAME. Nossa organização não é só de comunistas, mas nos apoia. Nossos detractores atacam a PAME para atacar ao KKE. Demonstra que o Estado e o capital têm medo da capacidade dos trabalhadores que lutam por um novo modelo socioeconómico. Falam já de debilitar as liberdades sindicais e sociais, de modificar a legislação sobre as greves para as endurecer. Estão a tratar de golpear aos grevistas e enjuiciarnos aos de PAME e nossos delegados. Tenho três ou quatro julgamentos pendentes.
Editado em http://www.gara.net/, por J. BASTERRA